quinta-feira, 2 de outubro de 2014

uma carta

Olá amor:

Hoje decidi escrever-te uma carta. Porquê? Para fazer a diferença e mostrar-te que és importante para mim, muito importante. Ainda estou no trabalho, mas tenho tudo organizado e resolvi aproveitar este momento calmo.

Hoje partilhaste comigo o discurso que vais ler amanhã. Li-o e enchi-me de orgulho. És uma mulher muito bonita, em muitas facetas diferentes. E é sempre bom quando descubro mais uma. Pelo discurso, compreendi o quanto te sentes bem a fazeres o que fazes, o optimismo com que encaras o futuro e a beleza à tua volta que vês e reflectes por palavras.

És uma mulher com valores e capacidades. E sonho com o nosso futuro conjunto, que surpresas ainda tens guardadas para mim?

Há muito que não escrevia uma carta. Penso que as últimas vezes que o fiz, foram, uma por ocasião da passagem de um ano do meu internamento na clínica, e outra quando ainda estava nas aulas do mestrado.

O tempo passa depressa, e a nossa relação tem ficado, penso, cada vez mais forte. Sou um homem de sorte. Obrigado por partilhares a tua vida comigo. Espero estar sempre à altura e poder ajudar-te sempre que necessitares.

Com paixão,
Hugo

A perda e a depressão (vistas por um psiquiatra)




"O luto é a reacção psicológica à perda de uma relação significativa. Depois de uma fase de negação, em que ainda se partilha a pessoa perdida através da imaginação ou colecção de objectos pessoais, sobrevém uma sensação de enorme vazio e tristeza. Este processo pode demorar meses a anos, mas se tudo correr sem entraves, seguem-se períodos de hiperactividade e agressividade que têm como desígnio substituir a pessoa (ou objecto) perdida. Na verdade, sempre que existem mudanças na nossa vida, perdem-se coisas e ganham-se outras, pelo que este processo é universal. Pode aplicar-se à perda de pessoas, do trabalho (ou dos papéis inerentes a certo tipo de trabalho), de bens ou mesmo de convicções e crenças. Mas também ocorre nas simples separações, e muito particularmente nos desenlaces amorosos.

Por vezes, este processo psicológico aparece sem motivo aparente. São tantas as perdas que se tornam possíveis, e muitas vezes tão mal assumidas, que nem sempre são claramente conscientes. Por vezes, é possível descobrir a perda não consciente. Outras vezes, a tristeza aparece de facto sem qualquer motivo, e poderemos estar perante uma depressão patológica. Aliás, as perdas precoces ou sucessivas são apontadas como os principais factores de risco para a depressão.

Por isso, a reacção de perda é o protótipo natural da depressão. Num caso e noutro, sobrevém uma tristeza profunda e uma sensação de vazio. Tal como se tivesse perdido um utensílio importante ou uma função corporal (o que pode desencadear o mesmo estado), quando alguém perde um ente querido sente-se incapaz de viver e abdica do futuro que, aliás, lhe aparece negro e indesejável. Qualquer esforço lhe parece pesado, qualquer aprendizagem impossível. Perdida a sincronia com a pessoa ausente, rejeita experimentá-la com qualquer outra, mesmo com os restantes familiares. Isola-se, procura o escuro e o silêncio, foge das pessoas. Dessincroniza-se das outras pessoas, mas também do ambiente natural e dos astros: a depressão é cada vez mais entendida como uma doença dos ritmos, sendo caracterizada pela insónia nocturna, por uma variação energética a contratempo com o dia (maior energia ao fim do dia do que de manhã) e pela perda dos impulsos alimentares e sexuais."

José Luís Pio Abreu, o bailado da alma
3338
Sobre o real e humano, podemos observar histórias felizes e infelizes, a qualquer momento. Por isso a realidade não é feliz nem infeliz. A sua complexidade ultrapassa estas categorias. Cada indivíduo joga a sua felicidade em cada acto que pratica, estando ou não consciente das consequências que lhe seguem.

Em sociedade porém, a realidade é composta não só de actos individuais mas também de actos colectivos. O julgamento que é feito pelos próprios indivíduos sobre as consequências dos actos colectivos tem grande importância no destino dos povos. Um povo que decide por si está mais consciente das suas escolhas e por isso do destino traçado. Um povo que permite que alguém decida por si, pode ser levado por caminhos que não entende em detrimento da sua liberdade.